O lucro em segundo lugar

por Conrado Adolpho

Antes de ler esse post, deixe-me adverti-lo. É um post grande, conceitual, reflexivo e não fala absolutamente nada sobre marketing digital. Belo incentivo, não é mesmo? Mas mesmo assim, acho que deveria lê-lo. O título já diz que vou falar algo sobre lucro, mas não como ouvimos falar normalmente.

artigo de Michael Porter da excelente revista HBR de janeiro de 2011começa com a seguinte frase: “o sistema capitalista está sitiado”. Cada país do mundo entende tal afirmação de maneiras bem diferentes. Para uma China, que descobriu o capitalismo nos últimos 30 anos, essa afirmação pode ser vista com descrença, mas em uma Europa em crise, certamente não. A verdade é que há algo errado em nosso sistema.

Apostamos todas as nossas fichas na segregação e no individualismo. O mito do self-made man continua fazendo muito sucesso nos países ocidentais. O viril herói que vence os perigos da selva apenas com sua força de vontade e representa o ideal de muitos indivíduos padrão. Já em 1854, o escritor norte-americano Henry Thoureau preferiu que “a maioria dos homens leva uma vida de um sereno desespero”. Uma frase impactante para quem está nessa “maioria dos homens”.

Não é de hoje que há algo que não é sustentável – e não estou falando só de ecologia. O preceito do capitalismo no seu estado mais puro é por o lucro em primeiro lugar, na frente das pessoas, ou seja, não interessa o quanto se explore um empregado, contanto que se consiga um equilíbrio ótimo entre o seu rendimento e o seu salário, ou melhor, o quanto rende e o quanto custa um determinado recurso humano. A melhora nas condições de trabalho de uma equipe só é implantada se a melhora no seu rendimento for maior do que o custo para tal.

O lucro puramente financeiro não leva em conta aspectos sociais, psicológicos e ambientais que permitem que as empresas existam e que o mercado compre. Gera um ciclo extrativista que consome mais rápido do que repõe. Não é preciso ser um gênio para entender que esse não é um sistema que vá durar muito tempo. O homem, acostumado com a rapidez que o mercado exige, não tem a acuidade visual para enxergar processos que gerem resultados somente a longo prazo, sejam eles bons ou ruins. Nossa percepção de mudança é linear e tem dificuldade de enxergar as mudanças a longo prazo.

Recomendei ler o artigo de Michael Porter (recomendo, mesmo) porque ele põe em cheque toda a ideia de lucro que temos atualmente sob o qual nosso sistema sobrevive. Concordo com ele e também a ponho na berlinda. Será que a busca incessante e unicamente pelo lucro financeiro é a melhor saída para nosso dia a dia?

A maioria das grandes corporações acredita que sim.

Parece, porém, que há algumas pessoas pensando diferente. Exemplos como o do bilionário suíço Stephan Schmidheiny inspira-nos a pensar diferente. Um homem que pôs o controle acionário de suas empresas nas mãos de uma fundação cujo objetivo é fazer o bem com o dinheiro ganho pelas empresas do grupo. Uma mudança total e completa de paradigmas que nos faz pensar se o que a maioria dos homens, que vive em seu “sereno desespero” para enriquecer meia dúzia de outros, pertencentes a minoria – que vive muito bem, por sinal – vale realmente a pena.

Desenvolvi esse assunto no meu livro “Você já tem um Plano B?” em que questiono justamente o modelo atual e, por meio de um livro gratuito, tento subvertê-lo. Mostrar que existem vias alternativas e que pode-se fazer acontecer em uma relação de mútuo benefício, o conhecido, mas não tão praticado, ganha-ganha.

O lucro financeiro visto como o único objetivo do negócio é prejudicial a todos, inclusive ao negócio, pois nos põe em uma perspectiva de curto prazo e isolada. Por mais que pensemos que vivemos nosso dia a dia de forma isolada, somos um sistema aberto, ou seja dependemos viceralmente dos outros e do ambiente que nos cerca. E com a conectividade que hoje governa, dependeremos cada vez mais. Prejudicar ao outro é prejudicar a si mesmo.

O lucro que parece erigir em uma nova economia baseada no compartilhamento e na informação é o lucro social. Aquele que, mesmo desconhecido da maioria das pessoas e empresas, é o caminho mais certo para o financeiro, mas a médio prazo. A ganância não nos deixa vê-lo pois é muito mais sutil do que nossos bolsos ávidos pelo próximo lançamento de smartphone ou modelo de carro pode perceber. O lucro que constrói a sociedade como um todo, não somente o indivíduo.

O individualismo como mola propulsora da economia parece uma fórmula fadada ao fracasso e, a cada crise, a cada bolha, tem se mostrado um erro persistente comparado a uma droga: o prazer imediato em detrimento da destruição irremediável a longo prazo.

Distribuir conteúdo gratuitamente, que é o que prego em cada um dos meus dias, é uma boa maneira de gerar lucro social. Distribuir conteúdo gratuito é doação de tempo, que é algo muito mais valioso do que dinheiro. Doar dinheiro, pode acreditar, é fácil. O lucro social tem mais a ver com o tempo das pessoas e muito menos com o dinheiro. Tem a ver com a reputação e muito menos com o que se pode comprar. Tem a ver com a construção de uma sociedade sustentável e muito menos com a construção de uma sociedade rica.

Costumo falar da diferença que a internet evidenciou entre o mercado social e o mercado econômico: o primeiro baseado em reputação, o segundo baseado em dinheiro. Reputação traz dinheiro, mas o contrário não é necessariamente verdadeiro. O lucro social atua diretamente no mercado social, do compartilhamento e da solidariedade. O mercado econômico na busca incessante e cega pelo lucro financeiro.

Uma frase de uma música do Jorge Ben(jor) nos diz: “se o malandro soubesse como é bom ser honesto, seria honesto só por malandragem”. Proponho fazermos o bem nem que seja por egoísmo, mas que, seja por que motivo for, atuemos cada vez no mercado social para salvar o pouco que ainda temos do que se chama de sociedade. 

Fonte: http://conrado.com.br/o-lucro-em-segundo-lugar/#more-2649

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